quinta-feira, 8 de novembro de 2012

You're the best team I've ever seen



O ano era 1979 e o cantor inglês de origem escocesa Rod Stewart estava no auge da sua carreira. Rod, que havia sido jogador de futebol amador, seguia sua rotina de lançar um sucesso após o outro quando gravou You're in my Heart (The Final Acclaim). Como era de se esperar, a canção atingiu o número um das paradas e virou mais um de seus clássicos. Clássico que trazia em um determinado verso da canção, uma homenagem ao clube do coração do cantor, o Celtic da Escócia. Referindo-se a seu time como o melhor time que ele já tinha visto, Rod talvez não tenha sido muito realista, mas certamente hoje esse é o sentimento de cada torcedor da equipe escocesa. Em uma das maiores zebras dos últimos tempos, o Celtic venceu ontem a tarde o todo poderoso Barcelona de Messi e companhia por 2 a 1 pela 4a rodada da primeira fase da Liga dos Campeões da Europa.

Apesar do resultado de ontem não ter acontecido em uma final ou em algum jogo decisivo, ele mostra o quão imprevisível é o futebol. Mesmo que na maioria das vezes o melhor vença, sempre há espaço para surpresas como a que acompanhamos nessa rodada da Liga. Provavelmente esse é o grande atrativo do futebol, afinal em nenhum outro esporte o improvável dá as caras com tanta frequência. O histórico dessas surpresas é extenso e inclui partidas que se tornaram duelos históricos. Em 1930, o Uruguai venceu a favorita Argentina no final da primeira Copa do Mundo. No Mundial de 1950, na partida que até hoje é considerada a maior zebra de todos os tempos, a equipe dos Estados Unidos formada apenas por amadores venceu a Inglaterra, uma das melhores equipes da época, em uma partida que acabou até virando filme. Na Copa de 1954, na Suíça, a Hungria de Puskás e Kocsis, um dos maiores times de todos os tempos foi derrotada de virada pela Alemanha na decisão, após ter aberto 2 a 0 em apenas 8 minutos de jogo. Em 1982, o Brasil, então melhor time de futebol do mundo, vindo de 4 vitórias convincentes, foi surpreendida e eliminada pela Itália de Paolo Rossi, que fazia até aquele momento uma Copa sofrível, tendo conquistado apenas uma vitória em 4 partidas. Zebra histórica.

No futebol brasileiro, a Copa do Brasil tem sido o principal palco para visita do simpático animal listrado. Já tivemos campeões como o Criciúma de 1991, comandado pelo então desconhecido treinador Luís Felipe Scolari ou aquele Juventude que conquistou a taça em 1999 diante de um Maracanã com mais de 100 mil botafoguenses. Em 2004, o Santo André derrotou o Flamengo no maior estádio do mundo, e sagrou-se campeão daquele certame que também ficou marcado pela bela campanha do desconhecidíssimo XV de Campo Bom, que conseguiu chegar até a semifinal. Um ano depois foi a vez do Fluminense perder o título para o Paulista de Jundiaí, em São Januário, estádio que algumas rodadas antes já havia visto o Vasco da Gama ser eliminado pelo Baraúnas de Cícero Ramalho, folclórico atacante do futebol nordestino que na época já havia passado dos 40 anos de idade. Também vimos o Palmeiras ser eliminado pelo Asa de Arapiraca, o Ceará e o Brasiliense serem vice campeões, o Londrina eliminar o Internacional, o Corinthians perder uma final para o Sport mesmo após uma confortável vitória por 3 a 1 no primeiro jogo da decisão. Enfim são surpresas das mais diversas que tornam a Copa do Brasil um torneio tão charmoso.

A verdade é que seja em jogos de Copa do Mundo, da Copa do Brasil ou em qualquer campeonato pelo mundo, o futebol nos ensina lições incríveis de superação. Favoritos sempre serão favoritos, mas aquela velha máxima de que não se vence jogo algum antes da bola rolar, não poderia ser mais verdadeira. Futebol se ganha no campo... A história nos tem ensinado isso. É por isso que o futebol é tão apaixonante, o esporte mais popular do planeta e enquando houver espaço para surpresas desse tipo continuará conquistando fãs e proporcionando momentos capazes de emocionar multidões e marcar gerações inteiras. Viva o futebol e viva a zebra! Afinal, assim como o Celtic de Rod Stewart, qualquer time pode ser o melhor time do mundo, nem que seja somente por uma tarde...

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A Queda do Império Adriano


Bastaram 75 dias para o Imperador Adriano terminar de maneira melancólica sua terceira passagem pelo Flamengo. Através de um comunicado a imprensa emitido nessa segunda-feira, o atacante se despediu do clube, antecipando uma decisão que já havia sido tomada pela diretoria desde a última sexta-feira. Depois de uma passagem sem gols pela Roma e outra onde marcou apenas 2 gols pelo Corinthians, o herói do hexa flamenguista em 2009 parece ter se superado dessa vez. Em pouco mais de 2 meses de Flamengo, Adriano não entrou em campo sequer uma vez e como era de se esperar, fora do campo manteve sua rotina de polêmicas, indisciplina e desrespeito com seus companheiros, torcedores e principalmente com sua própria história na Gávea.

A verdade é que falar sobre o histórico do Imperador fora das quatro linhas tornou-se lugar comum. Seu péssimo comportamento não é novidade para ninguém, mas ainda assim, existia uma expectativa que os ares do Flamengo, o carinho dos torcedores e a proximidade de familiares e amigos no Rio pudesse ajuda-lo nesse processo de recuperação. A presidente Patrícia Amorim, pressionada pelos maus resultado do time no ano, resolveu fazer essa aposta. A esperança do atacante voltar aos seus melhores dias na Gávea, um factóide criado pela própria diretoria rubro-negra justificou a contratação. O status de ídolo que Adriano ainda gozava com grande parcela dos torcedores foi crucial no processo. Fato é que ninguém de boa fé e em sã consciência, que pensasse com o mínimo de razão podia acreditar no sucesso dessa aposta. A tragédia era anunciada.

Quando foi craque, artilheiro e herói do título rubro-negro de 2009, Adriano, que já vivia processo de precoce decadência, conseguiu surpreendentemente compensar dentro do campo, as dores de cabeça que dava fora dele desde os seus dias de Inter de Milão. Para isso ser possível, a medida que seu futebol correspondia as expectativas da torcida, Adriano contava com a benevolência da então diretoria flamenguista que encobria sistematicamente seus deslizes fora dele, que incluiam faltas e atrasos nos treinamentos, noitadas varando a madrugada, brigas públicas com a então noiva e até relações mal explicadas com traficantes de drogas. Valeu à pena? No curto prazo sim, afinal o Flamengo quebrou um jejum de 17 anos e voltou a conquistar o título nacional. Entretanto, a atitude conivente dos dirigentes acabou legitimando a conduta cada vez menos profissional do atacante. O Imperador estava acima do bem e do mal e sentindo-se ainda mais a vontade para agir da maneira que bem entendesse. Daí para frente movido por uma prepotência incomensurável, Adriano não se enquadrou em nenhum projeto, não aceitou se submeter a hierarquia de clube algum e insistiu em justificar tudo sob uma ótica de "favelado perseguido". Pura balela...

Agora, prestes a fazer 31 anos, sem jogar bem há 3 anos, frequentando mais as páginas de fofoca e até as policias que os cadernos de esporte dos jornais, Adriano vai precisar recomeçar mais uma vez. Mas com seu histórico, quem terá coragem de dar uma nova oportunidade para ele? Como acreditar nas boas intenções de um jogador que saiu pelas portas dos fundos de todos os clubes que passou nos últimos anos? Me parece improvável que alguma equipe de ponta, tanto no Brasil como no exterior, invista nesse projeto. É uma aposta arriscada demais e com o retorno cada vez menor.. Eu não apostaria nem um centavo. 


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Desfecho prematuro


Fim da 33a rodada, e o longuíssimo Campeonato Brasileiro se aproxima do final. Depois de 330 jogos disputados, estamos chegando à melhor parte da competição. Aquela recheada de jogos decisivos, cheios de emoção, festa, drama, dor... A torcida, que durante esses 6 meses de campeonato muitas vezes esteve afastada, distante e mais preocupada com o desfecho da novela das 8, agora volta atenção total ao Brasileirão. Veremos arquibancadas cheias por todo o país, que irá parar para acompanhar o desfecho da competição. Mas calma aí, diferente do final de Avenida Brasil, onde só soubemos quem matou o Max no último capítulo, o desfecho desse Campeonato Brasileiro parece decidido, mesmo a cinco rodadas do fim.O Fluminense, embora não seja matematicamente confirmado, será campeão brasileiro.

Nesse ano de 2012, o Campeonato Brasileiro comemora sua décima edição por pontos corridos, formato que parece cada vez mais consolidado. Competições desorganizadas e com fórmulas mirabolantes são hoje coisa do passado. Os clubes hoje podem planejar seu ano com maior clareza, o torcedor pode fazer seu pacote de sócio-torcedor para obter ingressos para toda a temporada. Tudo isso sem surpresas desagradáveis. O futebol brasileiro hoje é muito mais forte, organizado e transparente. O êxodo de jogadores que ocorria anualmente de forma impressionante parece ter sido controlado e hoje, embora ainda não tenhamos o poderia econômico dos ingleses, espanhóis e italianos, podemos ver um campeonato com craques jovens e veteranos. Neymar, Ronaldinho, Deco, Seedorf, Juninho, Luís Fabiano, Ganso, Fred, Vagner Love, Fórlan, Kleber Gladiador, Montillo, Valdívia, Lucas, Leandro Damião... Não são poucos os jogadores de primeira linha que hoje desfilam seu talento no futebol brasileiro. Mas mesmo assim, olhamos para as arquibancadas e as vemos vazia na grande maioria das partidas.

Ingressos caros, violência, proibição da venda de bebidas alcoólicas nos estádios, dificuldade de acesso, meios de transporte deficientes, partidas em horários ruins... Enfim, são diversas as razões que afastam nosso torcedor das arquibancadas. Mas exceto a questão do consumo de álcool nos estádios, todas as outras já existiam a 20, 30 anos atrás, quando qualquer clássico meia boca, botava 50 mil pessoas no Maracanã. O que aconteceu então? Seria incoerente colocar a culpa no campeonato por pontos corridos, afinal as médias de público nesses últimos dez anos são muito semelhantes as dos dez anos anteriores quando o campeonato ainda não era disputado nesse formato. Entretanto era de se esperar que, com um maior nível de organização e com um maior número de jogadores de destaque atuando por aqui, as arquibancadas andassem mais cheias. Mas como encher estádios em um campeonato que se estende por 38 rodadas e há cinco rodadas do final já temos definidos o campeão brasileiro e todas as vagas para a Libertadores do próximo ano?

Não pretendo aqui detonar o formato do Campeonato Brasileiro por pontos corridos, até porque o nosso futebol teve importantes conquistas na última década, mas fica muito evidente que, embora esse formato seja o mais justo, em muitas oportunidades ele se torna desinteressantes bem antes da última rodada. Falando em números, essa será a quarta vez desde 2003 que o título será decidido antecipadamente, ou seja, em 40% das vezes que o campeonato foi disputado em pontos corridos chegamos na última rodada com o campeão já definido (Cruzeiro em 2003, São Paulo em 2006 e 2007 e agora o Fluminense de 2012). Em uma época onde discutimos tanto como atrair o torcedor para o estádio, não podemos nos dar ao luxo de perdermos o interesse do espectador logo no momento mais esperado da competição. Temos que encontrar meios de manter o interesse do consumidor desse produto até o último suspiro do último jogo da última rodada. E como fazer isso? O caminho passa obrigatoriamente por repensar esse modelo... Não podemos perder essa oportunidade...