segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Botafogo de Joel e o fim do complexo de vira-lata


No início da década de 1950, após o retumbante fracasso da seleção brasileira na Copa do Mundo do Brasil, o jornalista Nelson Rodrigues criou o termo "complexo de vira-lata" para definir a baixa auto-estima do povo brasileiro. Segundo Rodrigues, o brasileiro se colocava voluntariamente em posição de inferioridade em relação ao resto do mundo, o que contribuía para uma série de fracassos em todos os campos da vida, inclusive no futebol. Fomos campeões em 1958 e de certa forma, pelo menos no futebol, o Brasil deixou de lado esse complexo de inferioridade tão bem identificado pelo escritor pernambucano.

Passado mais de meio século, a seleção brasileira, cinco vezes campeã mundial, se tornou não só a maior vencedora de Copas, como também uma referência aos amantes do esporte bretão e o Brasil passou a ser conhecido como país do futebol. O complexo de vira-lata passa longe dos jogadores que vestem a camisa canarinho, o torcedor é exigente e não aceita nenhum resultado que não sejam as vitórias. Esse complexo porém andou assombrando um tradicional clube de nosso futebol nos últimos anos.

Três anos seguidos vice-campeão carioca (2007/08/09), sempre tendo como algoz o Flamengo, semifinalista de duas Copas do Brasil, boas campanhas durante boa parte dos Campeonatos Brasileiros, mas sempre perdendo gás no final, o Botafogo de Futebol e Regatas refletiu nos últimos anos, de forma límpida, o que Nelson Rodrigues havia definido como característica inerente do brasileiro, há mais de 50 anos. Não sei onde, mas uma vez li que alguém definiu o torcedor botafoguense como “um pessimista a espera de um milgare”. É uma definição perfeita da alma do botafoguense, que de fato acredita que há coisas que só acontecem com o Botafogo, seja para o bem ou para o mal. O botafoguense é neurótico, tem mania de perseguição, não confia em nada nem em ninguém, ele sempre acredita que o pior, não só pode, como de fato irá acontecer... Enfim, o botafoguense é um esquizofrênico no auge de uma crise durante os 90 minutos de cada jogo.

A verdade é que o torcedor botafoguense talvez nem sempre tenha sido assim, só que o sofrimento dos últimos 40 anos o fez assim. Desde o bi da Taça Guanabara e do Carioca de 1967/68, o Botafogo viveu mais de sofrimentos do que de alegrias. Primeiro, foram 21 anos sem conquista alguma. Depois, após de um breve período de sucesso nos primeiros anos da década de 1990, mais sofrimento até a desastrosa campanha que culminou com o rebaixamento em 2002.

Eu, porém, vejo o rebaixamento em 2002, como o início de um momento de resgate do Glorioso. Embora traumática, a experiência na segunda divisão, serviu como o início de uma virada na história do clube. A gestão Bebeto de Freitas, apesar de ter cometido alguns equívocos, teve um papel importante na retomada do clube tanto em aspectos financeiros, de infra-estrutura, como esportivos. O clube voltou a ser respeitado, voltou a disputar títulos e assumiu o papel, antes ocupado pelo Vasco da Gama, de grande rival do Flamengo. Mas ainda faltava um algo a mais, faltava expurgar do clube esse complexo de inferioridade que fazia com que o clube (desde os jogadores até sues torcedores) tivesse um certo medo de vencer, de ser campeão, de ser feliz.

Até a fatídica derrota por 6 a 0 para o Vasco pela terceira rodada do Carioca 2010 não sabíamos o que faltava para o Botafogo dar esse passo a frente, rumo a felicidade. No dia seguinte, entretanto, obtivemos a resposta. O que faltava era Joel Natalino Santana. Mas o que o simpaticíssimo Joel tem, que Cuca ou Ney Franco não tinham? Seria Seu Natalino o novo Rinus Michels? 4-4-2, 3-5-2, 4-3-3, 3-4-3, 4-3-1-2, 4-2-3-1, qual seria o esquema revolucionário que Joel montou para mudar tudo isso?

A resposta é muito simples: Joel não só entende muito de futebol, como confia no seu trabalho e sabe transmitir essa confiança. Em bom português, Joel é bom, sabe que é bom e consegue que os jogadores confiem nisso. Sem nenhum “invencionismo” tático, o treinador sabe como poucos falar a língua dos jogadores, sabe extrair o que cada jogador tem de melhor, sabe armar uma equipe de acordo com as características de seus atletas.

Joel, que muitas vezes foi ridicularizado e estigmatizado por parte da imprensa em função do seu jeitão folclórico, é um dos treinadores mais vencedores da história do futebol brasileiro. Seu currículo é incontestável e é o único treinador a ter conquistado títulos pelos quatro grandes clubes do Rio. Sabe como poucos vencer e não tem o menor medo de ser campeão. Cuca e Ney Franco são ótimos treinadores, entendem muito de futebol, mas não conseguiram vender a idéia de time campeão aos seus jogadores. Joel, mesmo com um time mais limitado que as equipes do “tri-vice”, conseguiu fazer com que todos no clube comprassem a idéia de que era possível vencer qualquer um. Dirigentes, jogadores e torcida se uniram em torno desse ideal e jogaram pra escanteio aquele complexo de vira-lata que há tanto atormentava o clube.

Campeão carioca incontestável, tendo conquistado os dois turnos e eliminando Vasco, Fluminense e Flamengo (esse duas vezes), o Botafogo comandado por Joel, depois de ter patinado durante o início do Brasileirão, começa a demonstrar que também pode ser feliz na competição nacional. Depois de emplacar 3 vitórias consecutivas, a equipe já está no G4 e embora ainda esteja muito longe do líder Fluminense, começa a mostrar força para ao menos lutar pela vaga na Libertadores 2011. Joel acredita, os jogadores, acreditam, a torcida acredita... Será possível? Eu não duvido...

Um comentário:

  1. Joel é foda! Fora a palhaçada que foi a despedida dele na partida contra o América do México (não precisava fazer aquele circo todo) onde o Flamengo levou uma piaba, ele tem um belo currículo no futebol. E sem o "Inglês Básico", hehe! Sempre gostei do trabalho dele, e mesmo Flamenguista, admiro o que ele vem fazendo no Botafogo.

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