sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Dunga e a imprensa


Nos últimos quatro anos, enquanto Dunga comandou a seleção brasileira, as entrevistas coletivas do treinador foram marcadas quase sempre pelo clima de guerra entre o capitão do tetra e os repórteres. Sempre desprovido de controle emocional e munido com um amplo repertório de respostas atravessadas ou com um toque nada sutil de ironia, cada entrevista de Dunga era um verdadeiro festival de grosserias, que demonstravam falta de educação e de respeito não só com os profissionais de imprensa, como com o próprio torcedor brasileiro.

O fato é que, mesmo diante do comportamento totalmente inadequado do ex-treinador da seleção, os resultados conquistados durante os anos que antecederam a Copa, de certa forma o blindaram de maiores contestações. Agarrado a um conceito de coerência muito peculiar, formada por jogadores nos quais Dunga mantinha uma relação de cumplicidade, a seleção venceu a Copa América, a Copa das Confederações e obteve a classificação para a Copa do Mundo com algumas rodadas de antecipação.

Mesmo após a polêmica convocação da seleção que iria defender as cores do país na África do Sul, quando o técnico deixou de fora Ronaldinho Gaúcho, duas vezes melhor do mundo e os meninos da Vila, Neymar e Paulo Henrique Ganso, e convocando jogadores contestados como Kléberson, Júlio Baptista e Grafite, a maior parte da crítica especializada ainda mantinha um discurso moderado. Porém, à medida que Dunga confrontava a imprensa, fechando os treinamentos da seleção, dificultando o acesso aos atletas e tendo um comportamento cada vez mais intempestivo durante a Copa, ficou claro que qualquer resultado negativo entornaria o caldo e sua situação ficaria insustentável. Veio a eliminação nas quartas diante da Holanda, e com ela a hora da forra...

O que era até então aceito como coerente, futebol de resultado e comprometimento, virou intolerância, inflexibilidade, futebol robótico, falta de personalidade... Os críticos que antes se viam obrigados a “engolir” o treinador, partiram para um pesado contra-ataque. Como foi em 1990, Dunga foi escolhido como o vilão (dessa vez com muito mais razão) e o futebol-arte, a vítima. Tudo aquilo que vinha sendo guardado durante quatro anos, foi despejado no melhor estilo metralhadora giratória. Não houve perdão...

Por favor, não me entendam mal. Não quero defender Dunga das críticas, pois é evidente ele teve o destino que mereceu, assim como não quero generalizar a imprensa... Posso citar uma centena de jornalistas sensatos e com posição independente que nunca se encolheram perante o então treinador da seleção enquanto estava por cima, assim como não resolveram espezinhá-lo após o fracasso na Copa. Lédio Carmona, Juca Kfouri, Paulo Vinícius Coelho, José Trajano, Milton Leite, Caio Ribeiro e muitos outros que agora não me vem na cabeça.

O que na verdade me abisma é como há pessoas que, seja por interesse, seja por covardia, agem de acordo com a maré. Jornalistas que de alguma forma, até três meses atrás, consideravam positivo o trabalho de Dunga a frente da seleção, e que agora com a maior tranqüilidade do mundo criticam todo o seu trabalho de maneira pesadíssima. Enfim, felizmente vivemos em uma sociedade onde existe total liberdade de expressão, mas a imprensa deve ter consciência da responsabilidade que esse poder nos concede. Parafraseando Ben Parker, tio de Peter Parker (para os que não sabem essa é a identidade secreta do Homem-Aranha), no momento em que agonizava em uma calçada de Nova York: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.

2 comentários:

  1. O Dunga é uma espécie de Rambo brasileiro. Para ele, a guerra nunca termina. Na verdade, ele precisa da confrontação para viver. Não o recrimino integralmente. Há vários setores da imprensa que, uma vez contrariados, seja por uma coletiva não concedida, seja por uma resposta um pouco menos solícita, não hesitam em abrir fogo contra os seus "inimigos". Dunga comeu o pão que o diabo amassou durante quatro anos. Na minha opinião, boa parte das críticas feitas à seleção de 94 são injustas. Entretanto, em tese, o momento em que o capitão ergue a taça deveria ter sido o ponto final de uma trajetória vitoriosa. Para Dunga, a guerra prosseguiu. Algumas batalhas foram ganhas; outras, perdidas. E a guerra continua.

    Dunga demonstrou uma concepção anacrônica de futebol, mas creio que poucos treinadores teriam escalado uma seleção muito diferente da dele. Apesar dos pesares (relacionamento controverso com a imprensa e a própria forma de jogar da seleção, com dois volantes limitados em um contexto de renovação do futebol mundial - vide a Espanha e a Alemanha, com Khedira e Schweinsteiger), a lembrança que fica, para mim, será a do capitão do tetra, das cobranças de penalty brilhantes em 94 e 98, do lançamento para Romário, contra Camarões, da raça, da dedicação e do comprometimento. Ainda que, em 2010, todas essas virtudes tenham sido, em parte, maculadas.

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  2. Dunga como jogador, foi vencedor... Não tem a menor dúvida disso... Não foi um volante brilhante, mas era extremamente voluntarioso, obstinado e um líder nato...
    Como treinador, teve suas virtudes, mas naufragou com a seleção muito em função das suas convicções, totalmente ultrapassadas...
    Seu maior problema não foi como jogador ou como treinador... Seu maior problema é de cabeça... É um sujeito desequilibrado, mau educado e arrogante... Ele não é o Rambo, ele é o Shrek...

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